A Verdadeira Violência
Ao longo desta minha breve
existência desde a idade da puerícia até atingir- mesmo que ainda com certa
resistência- a denominada “fase adulta”, sempre fui afeito à leitura, e sempre busquei
conservar o hábito da escrita, apesar de raras terem sido as oportunidades onde
efetivamente tornei público alguns dos meus mais íntimos sentimentos e
pensamentos.
Pois bem, a razão de ser de
tal deve-se a um simples fato. Conservo minha língua “preguiçosa”, ou até mesmo
indolente às críticas em certas ocasiões, para não transmutar em som os
pensamentos que pela via oposta são arquitetados ácida e afiadamente pela minha
mente.
O que me leva a escrever na
presente data está de alguma forma relacionado com os presentes acontecimentos
na faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia- mais especificamente
com relação ao tema da violência no trote- mas os ultrapassam porque diz
respeito a uma reflexão acerca de certos valores. Dito isso, gostaria de dar
início a estas linhas indagando acerca da vagueza e abertura semântica do
vocábulo “violência”, afinal de contas, que significa?
Uma palavra solitária é como
um molde, serve para designar ideias que serão mais ou menos imperfeitas a
depender daqueles que brincam num determinado “jogo” de linguagem, e expressam
pouco mais que uma pequena parcela de uma realidade que já não condiz consigo
mesma, nem se reconhece no espelho. Como diria aquela música do Titãs,
“palavras são iguais, sendo diferentes”.
A despeito de serem amplos
os sentidos que se podem atribuir ao termo, alguns dos doutos professores desta
emérita casa, apesar dos notórios e elevados saberes jurídicos, como alunos que
parecem não compreender muito bem os ensinamentos mais basilares da Semiótica,
ou da Filosofia do Direito, ou da Hermenêutica Jurídica, optaram por
compreender o termo em sua acepção mais rasteira, como um ato de constrição
física de um sobre outro, como um ato de abuso de força, como um ato de
opressão, de tirania.
Que Deus tenha pena de suas pobres
e ignorantes almas, e se não acreditarem em Deus, bem...que seus alunos lhe
perdoem os pecados! Mas se ainda sim não acreditarem em dogmas como “pecado”,
então sou forçado a aceitar a ideia de que essa opção interpretativa deve
provavelmente estar relacionada ao descaso que se tem com as disciplinas
propedêuticas, afinal de contas, para que pesquisar, para que buscar uma
ontologia do referido termo se grande parte destes professores já estão
consumidos com seus cargos públicos, ou com as tarefas de seus renomados escritórios
não é mesmo?
Não, este não pode ser o
sentido de violência! A violência aqui é outra, e em nada tem a ver com um
balde de tinta ou um saco de farinha jogado em cima dos novos estudantes que
ingressam nesta faculdade, assim como em nada tem a ver com os breves ruídos
provocados durante o processo de reunião dos novatos para um ritual , ou melhor
dizendo para um hábito cultural, existente no contexto das universidades
brasileiras.
A violência de que eu quero
tratar aqui é aquela contrária à moral, é aquela atrelada à desonestidade, à
indecência, à improbidade, porque são estes os vícios que fazem esta casa
padecer.
A violência que eu lamento
caminha pelas salas e corredores desta casa, é a violência do indiscutível
descompromisso com a causa da educação, não apenas a formal, mas a moral, aquela
que se passa não através de palavras, mas de exemplos! Esquecem-se muitos deles
da nobreza das suas funções, de educar para a civilidade, para a sociedade,
para o desenvolvimento pessoal e para o mundo! Triste faculdade, ó quão
dessemelhante estás de seu antigo estado.
A violência que eu enxergo é
o da exagerada utilização de “ferramentas” como os tirocinistas para suprir as
lacunas deixadas por compromissos em São Paulo, em Brasília, no exterior, isso
quando há a preocupação em buscar um substituto, pois não raras são as vezes
onde os alunos sequer são avisados destas ausências. Mas não acaba por aí, pois
a violência que eu presencio é aquela da “gambiarra teórica”, da improvisação,
do jeitinho brasileiro que vai “encaixando” um professor aqui e outro ali
porque não existe um número de docentes e funcionários adequados na
instituição.
A violência com a qual eu convivo
é a das arbitrariedades cometidas nas aplicações das avaliações e que no final
não cumprem seu papel. De provas cujo conteúdo não foi dado em sala de aula, de
provas onde professores sistematicamente se utilizam do “jus sacaneandi” para
retirar pontos preciosos pelo simples e sádico prazer de sustentar fama de
professor “bad boy”, de provas que não são corrigidas por eles, de provas que
mesmo apesar de cumprida as formalidades exigidas não são recorrigidas, de
provas que sequer são entregues! E tudo continua como “dantes no quartel de
Abrantes” como diria meu pai.
A violência que eu sinto é a
da tomada de decisões unilaterais que interferem na “vida” da faculdade sem que
seja dada à outra parte a chance de ouvi-la, sem que seja permito a ela o
direito ao contraditório, à ampla defesa, ao devido processo legal, a duração
razoável o processo.
A violência que me agride
como um chute do Anderson “Spider” Silva no maxilar, é a violência do descaso
com a coisa pública por quem mais deveria por ela zelar. É a violência contra o
princípio da Legalidade, contra o princípio da Moralidade, contra o princípio
da Publicidade, contra o princípio da Eficiência!
A violência que me assombra
é aquela que me lembra cotidianamente a necessidade de ter de estudar em uma
faculdade que põe a minha segurança em risco. Que me faz ter de ponderar acerca
da possibilidade de um incêndio, de uma inundação, de um desabamento a qualquer
hora do dia... talvez seja por isso que possuo um seguro de vida, tudo bem, é
de só cinco mil, mas afinal de contas o que vale a vida de um estudante mesmo
não é?
A violência que me
constrange é aquela que deseja expor e violentar minha intimidade nos
banheiros, que atenta contra a dignidade de minha pessoa enquanto ser humano
violando minha privacidade, impedindo meu asseio, pois quando há papel, não há
sabão. Quando há sabão, não água. Quando há água, não há papel.
A violência que me incomoda
e que insiste em querer me manter na ignorância, é aquela que fez morada entre
teias e alfarrábios na biblioteca. É a violência da ausência de livros
suficientes para o número de alunos matriculados, de livros adequados e
contemporâneos às novas leis, e aos novos pensamentos doutrinários e
jurisprudenciais. É a violência que me impede de ter acesso muitas vezes a
computadores com conexão a internet, este bem tão fundamental em nossa vida
atual. É a violência que me impede de ter um ambiente de estudo
individualizado, que me impede de literalmente tomar assento no condenado
auditório.
Assim como meu tio avô
graduou-se nesta casa no longínquo ano de 1942, assim como meu avô repetiu o
feito em 1944, e assim como meu pai repetiu a tradição jurídica em Agosto de
1976, dou continuidade a este legado esperando conseguir um dia colar grau
nesta casa, que certamente já não é a mesma, na medida em que nós também já não
somos os mesmos.
Lembro que meu querido avô
nos anos finais em que pode estar comigo, contava histórias de uma época de
“ouro” da faculdade, de expoentes como Orlando Gomes, Raul Chaves, Aliomar
Baleeiro, de seu amigo J.J.Calmon de Passos, de suas vidas e de suas lutas por
esta casa, e me imagino por que caminhos tortuosos se perdeu esta história, em
que momentos nos tornamos pequenos, em que momento o brilho se tornou opaco
como um “ouro de tolo”.
Ecoam lamentos, tristezas
são vertidas em vão, sussuros e preces a um semi-deus que não atende e não se
faz presente, e tudo se deforma, e tudo se degrada, porque ao final o que resta
é soberba, é a luz maculada de um saber maquiado, é o refrão repetitivo de uma
mesma toada, e me pergunto mais uma vez por onde toda aquela memória foi
caminhar, se no subconsciente daqueles que deveriam cuidar dela, ou se em
direção a algum subsolo escuro e imundo se deteriorando no tempo.
Salvador, 20 de Março
de 2012
Gabriel Salles Maia
Comunicólogo e
estudante do 7 semestre de Direito.
é isso, gabriel. o descaso com a coisa pública é entristecedor na nossa faculdade. são violências e violências contra as pessoas que ali transitam, ali estudam ali trabalham e daquela faculdade dependem. Estou muito contemplada pelo seu texto e acredito que todos aqueles e todas aquelas que apoiam e constróem o FDUFBA movimenta sentem-se contemplados também. o que temos de fazer é não parar essa luta, só ampliá-la mais e mais, em defesa da universidade pública, da honestidade e do bom funcionamento da nossa unidade, a faculdade de direito. essa luta é de todos nós!
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